Há um ano escolhi seu nome, Cecília!
Há exatos doze meses soube que teria uma menina e pensei com todo amor do mundo nos melhores nomes pra te dar. Comecei a pensar a partir de então no melhor da vida pra te dar, o tempo todo, e no melhor de mim pra te espelhar como mulher.
Desde esse dia também eu temo. Pela nossa luta, que pra você começou no ventre. Não tenho medo de lutar e sei que você já nasceu corajosa, só pela maneira de me olhar e de descobrir curiosamente esse mundo, mesmo tendo estado há mais tempo dentro de mim do que encarando a vida aqui fora.
Mas temo pelo mundo em que estamos vivendo. Pela cultura do estupro, pela desigualdade no mercado de trabalho, pela misoginia e pela homofobia, pelo fanatismo religioso, pela inversão de valores do que hoje chama ser um "cidadão de bem", temo que este mundo ainda não esteja preparado pra você, filha! Pro seu coração sensível, doce, feminino.
Temo pelas Cláudias, Eloás, Lianas, Valentinas, Beatrizes...
São tantos nomes e tantas sem nome e sem voz. Tantas cujas mães também pensaram no nome mais bonito e no melhor que pudessem dar da vida, e que o mundo recebeu com machismo e crueldade. Ainda há muito pra avançar e, infelizmente, muito pra se lamentar...
Mas é você, filha, que me dá cada dia mais força pra erguer a voz, pra exigir respeito, justiça, igualdade. Pra lutar pela nossa vida em um lugar que te mereça, pra lutar pelas suas escolhas e pela sua liberdade. Pra te ver crescer com todas as opções, desde a cor de roupa até o seu planejamento familiar. Pra te ver sem medo de andar sozinha na rua ou de usar a roupa que sentir vontade.
Pra te ver sem culpa e sem receios, pra te ver sem esse calafrio terrível que me invade hoje e me faz chorar com tantas Maria e Clarices nesse solo macho e estéril de empatia e carinho.
Desculpa a trizteza hoje, filha! Mas é por todas nós. Por você a minha voz tem voltado e jamais vai se calar. Seu nome é o mais lindo do mundo, Cecília, E é Mulher!