quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Seu Domingos, meu avô!

"Eu era pobre, como até hoje ainda sou. Mas quando nasceram os meus filhos eu virei o homem mais rico do mundo"

Foi assim que ele nos fez chorar quando contamos que você estava a caminho, filha! Seu Domingos e Dona Santa, meus avós, foram os primeiros a receber a notícia pessoalmente e ele foi o único a emocionar seu pai, que estava todo preocupado com as contas que iam aumentar!
Meu avô fez a gente chorar!


Suas palavras simples e sempre verdadeiras eram a marca de sua sabedoria e experiência. Mas acima de tudo de sua doçura e carinho com filhos, netos e bisnetos, mesmo os que ainda estavam por vir.

Quando eu e meu irmão éramos crianças ele foi mais do que um avô! Supriu a nossa ausência de pai assumindo os dois papéis, sempre presente, atencioso, carinhoso e firme! Sempre ao lado da sua Santinha, com um amor declarado e dividido há cinquenta anos, que transbordava como referência pra família e pra todos que tiveram a oportunidade de conhecê-los.



Infelizmente ele não pôde te conhecer, filha. Me lembro dele me dizendo isso, no meu sétimo mês de gravidez, quando o levávamos pro hospital: "Queria tanto conhecer minha bisneta!". E depois no hospital, mesmo bem abatido, exibia minha barriga com orgulho de pai-avô e dizia a meu respeito "ela é minha primeira neta!".

Hoje já são quatro meses sem ele. Por muito pouco ele não dividiu mais essa alegria com a sua Santinha, a de segurar você no colo com um amor que brotava dos seus olhos e nunca tinha fim. Há quatro meses ficamos todas órfãs do nosso paizão e mais uma vez ele fez a gente chorar.
Ele se foi sereno, sem sofrimento, no alto dos seus oitenta e cinco anos de exemplos de vida. O que nos consola, mas nos deixa ainda mais saudosos.



Ele é presente em tudo:
Nas expressões "acaipiradas" que a gente imitava, no macarrão de domingo que a gente não consegue mais fazer, no lugar na ponta da mesa, na feira de quarta, nas ferramentas, madeiras, latinhas, cachacinhas, no truco do churrasco, nas pescarias e histórias depois do jantar, pizzas no sábado à noite (sem milho), nos passarinhos, cachorros, no papagaio que ainda espera ele chegar, nas histórias de infância e no orgulho que ele sempre teve de todos nós, filhos e netos. Nos jogos do Palmeiras, paixão que ele deixou de lembrança, e nas tantas boas lembranças que a mamãe queria muito poder dividir com você.


Dona Santa te pegou no colo, trocou suas fraldas, te amou por dois, pois ele ficou em nós através dela. Seu Domingos infelizmente se foi antes disso, mas você sentiu. Você sentiu a minha tristeza da barriga, esteve comigo e com ele no hospital, nas visitas, na UTI e acompanhou a nossa tristeza na despedida, com toda a família e amigos que ele só acumulou durante a vida.

Você sentiu a nossa tristeza pequenininha na barriga, nunca em nenhuma ocasião eu te sentia mexer tanto e tão intensamente. Parecia querer nos confortar e dizer que ao levar um anjo de nossas vidas, estaríamos recebendo outro anjinho lindo que era você!


Ele nos ensinou a ter alegria nas coisas simples e firmeza de caráter, a colocar a família sempre em primeiro lugar e não ter preguiça nem vergonha do trabalho, qualquer que fosse. Ele era lindo, fofo, carequinha, magrinho mas com as mãos carinhosas mais pesadas que eu já conheci...rs Fazia a melhor pipoca do mundo e adorava pão com salsicha! E um ovinho frito, "bem fritinho não faz má..." dizia quando a gente implicava com o colesterol.

Poderia escrever um livro de lembranças, memórias e ensinamentos, mas esse é apenas um registro pra que você saiba que, apesar dessa tristeza no final da minha gravidez, você foi e é o anjinho que nos deu a alegria que a gente tanto precisava.

O que eu sou está impregnado da presença dele e vai passar pra você naturalmente, filha! Você vai conhecê-lo por mim e pelas boas e muitas histórias.

E vai ser palmeirense também, né?!

"Lampião de gás
Lampião de gás
Quanta saudade
Você me traz..." (Inezita Barroso)

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