Filha, eu faço tudo por você! Nosso amor só cresce a cada dia e quero poder te proporcionar a melhor vida, com os melhores valores e todo o carinho e cuidado. E por isso mesmo hoje tenho que ser um pouquinho "egoísta" e pensar em mim. Como ser um exemplo pra você, não só de mãe, mas de mulher. Como fazer você conhecer a mulher que eu sempre fui e que ficou adormecida pra que você pudesse nascer.
Estou voltando a trabalhar, mas meu corpo está diferente, minha voz demora um pouco pra me obedecer de novo como antes, minha disposição é grande, mas tenho muito mais afazeres pra dividir com o tempo de estudos, projetos e trabalhos. É impossível nesse momento não priorizar o seu choro, seu pediatra, suas vacinas, o aprendizado do dia a dia ao seu lado.
Mas sinto que preciso parar pra me observar como indivíduo e ajustar a sua rotina à minha, compartilhando nossas necessidades. Agora mesmo interrompo meu texto pra te acalmar...
Duas horas depois, depois de acalmar, amamentar, complementar com a mamadeira, acalentar, trocar e deixar você com o seu pai pra ele te fazer dormir... tenho uma crise de choro e volto pra tentar terminar o texto.
Meu choro é silencioso, sem pedir colo. Eu sou o porto seguro agora e não posso nunca mais deixar de ser. Hoje mesmo disse à minha mãe que ela tem esse direito sim, de ser mulher, de pensar no seu trabalho, se cuidar, de pedir ajuda quando não der conta... mas acho que começo a entender essa cobrança de sempre ter que dar conta de tudo.
Você ainda não dormiu, está resmungando, deve ser cólica... tenho músicas pra ensaiar amanhã e nem tive tempo de estudar direito. Passei pela cozinha e tive que escolher entre terminar o texto ou lavar a louça, o que é sempre a última opção...rs
Nunca gostei de fazer as coisas com pressa ou pela metade, mas é um momento em que essa cobrança pessoal e profissional só faz mal. É preciso ter calma e se dar esse tempo. A licença maternidade não é só pra cuidar de você, filha, é pra cuidar de ser mãe (e pai), que a gente ainda não sabe!
É possível se reinventar e se redescobrir, mas é um caminho mais lento pra muitas coisas, um exercício diário de paciência e companheirismo. Mas o que me move acima de tudo é o desejo de ser um dia pra você o que sua vó hoje é pra mim. Uma mãe maravilhosa, mas acima disso uma mulher que eu admiro e confio.
A cobrança talvez seja inevitável, mas acho que é possível ao menos não se culpar pelos momentos de individualismo, não se martirizar pela demora do corpo em voltar pro lugar, não deixar de planejar, mesmo que mentalmente, objetivos profissionais e dividir as tarefas para que sejam realmente tangíveis. Talvez a minha ansiedade esteja precipitando as coisas e com o tempo as coisas comecem a ficar mais tranquilas na minha cabeça.
A gente pode errar como mãe e não ser perfeita na visão do filho, mas é importante acima disso que a gente não se esqueça de quem é como pessoa, pra que além da vida que a gente quer proporcionar ao filho, a gente possa realmente compartilhar a nossa!
Vamos dormir que amanhã tem ensaio e você vai com a gente, filha!

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